Especial Angra Pt.3: Holy Land

quarta-feira, 10 de julho de 2013


Clique aqui para ler a primeira parte do Especial Angra (matéria sobre Fabio Lione).
Clique aqui para ler a segunda parte do Especial Angra (sobre o álbum "Angels Cry").
Clique aqui para conferir a entrevista exclusiva com Rafael Bittencourt para o ATM.
Clique aqui para todos os detalhes sobre o show que a banda realizará em Porto Alegre, evento da Abstratti Produtora e Urânio Produtora.

Dando continuidade a nossa série de especiais sobre o Angra, o post de hoje aborda um dos álbuns mais bem sucedidos da carreira da banda, "Holy Land". Após a excelente estreia com "Angels Cry", a banda sentiu que estava na hora de embarcar em projeto mais ousado. O quinteto decidiu apostar em uma proposta onde a mistura de ritmos brasileiros com o peso do Metal formariam a estrutura para o novo trabalho. Coincidência ou não, no mesmo ano o Sepultura também lançaria "Roots", ou seja, as duas maiores bandas nacionais mostravam ao mundo um pouco da cultura tupiniquim através de discos que marcaram época. 
 

Durante 4 meses os integrantes do Angra isolaram-se um sítio de Taperaí, no interior de São Paulo, onde puderam se dedicar exclusivamente a composição do segundo álbum de estúdio. Entre janeiro e março de 1995, a banda gravou algumas demos em São Paulo, material que foi lançado no ano seguinte com o nome de "Eyes Of Christ". Na verdade, esse é um material bem curioso na discografia da banda, pois algumas músicas acabaram não sendo gravadas na versão final do álbum e outras apresentavam nomes diferentes. Alguns exemplos incluem "Live And Learn" e a faixa título da demo, que foram regravadas anos mais tarde no EP "Hunters And Prey", de 2002. "Carolina IV" tinha outro título, "River To The Sky". Podemos encontrar também a canção "Freedom Call", que não está presente em "Holy Land", mas acabou virando título de um EP também lançado em 1996. Para completar, temos "Spell", uma música praticamente desconhecida na carreira do Angra, mas bem lembrada pelos fãs que anseiam por uma regravação dessa canção. 

 

No final de junho de 1995, o Angra regressou a Alemanha para a gravação do álbum ("Angels Cry" já havia sido gravado em Hannover), novamente contando com a produção de Sascha Paeth e Charlie Bauerfeind. Todo o processo de gravação e mixagem levou cerca de 3 meses e meio, um álbum que ficou pronto de forma relativamente rápida. Algumas gravações adicionais foram feitas em São Paulo, como os registros de berimbau  (por Pixu Flores), flauta (por Paulo Bento) e percussões (por Castora). O lançamento oficial do álbum aconteceu em março de 1996, mais uma vez pela Rising Sun Records.
O álbum inclui uma introdução composta por Giovanni Pierluigi da Palestrina, um compositor italiano do período da Renascença. G.P. da Palestrina foi um compositor muito influente na evolução da música sacra dentro da Igreja Católica Apostólica Romana, escreveu inúmeras obras e missas ao longo de sua vida e é considerado um dos nomes mais importantes da música erudita anterior a J.S. Bach. Considerando que o álbum aborda o período das grandes navegações e o descobrimento do Brasil, não haveria outro compositor mais indicado como inspiração para o Angra. Os corais foram gravados por Reginaldo Gomes (baixo), Celeste Gattai (soprano) e Mônica Thiele (alto). 
Apesar de não conter uma história linear através das faixas, "Holy Land" é considerado um álbum conceitual pelo simples fato de abordar um tema ao longo de todas as suas faixas, interligando todas elas através de histórias envolvendo navegações e utilizando a miscigenação cultural brasileira como base de tudo. Existe também um elo perdido nas letras conectando o período de desbravamento de novas terras com os tempos atuais de globalização. O próprio encarte do álbum apresenta um mapa do período do descobrimento do Brasil, um verdadeiro atrativo à parte. 

 

Musicalmente, o álbum difere em vários aspectos em cada uma das composições presentes no trabalho. Temos músicas bem tradicionais do Angra, como "Nothing To Say", um clássico obrigatório em qualquer show do grupo, e "Z.I.T.O.", uma faixa rápida em uma linha bem tradicional do Power Metal. Ao mesmo tempo, encontramos outras músicas repletas de influências de música brasileira, como "The Shaman" e a própria faixa título, verdadeiros exemplos de onde nossa cultura pode chegar quando aliada ao bom gosto, habilidade técnica e conhecimento erudito. 
Um dos principais destaques de "Holy Land" é a épica "Carolina IV", uma canção de 10 minutos e meio que atravessa várias mudanças e sonoridades. Honestamente, não há como negar que essa é uma das maiores obras-primas já escritas por uma banda nacional, com passagens orquestradas, momentos mais rápidos, percussões e muita influência de música brasileira. Inclusive, em um determinado momento escutamos até mesmo um trecho de flauta da canção "Bebê", de Hermeto Pascoal. 
Um fato curioso e pouco conhecido sobre a faixa de "The Shaman" é sobre a origem das narrações no meio da música. A letra da canção conta sobre um pajé que tenta ressuscitar um guerreiro indígena através de determinados rituais de sua cultura. Para gerar todo esse clima, a banda utilizou um trabalho criado por Marcus Pereira, que foi um publicitário, pesquisador musical e editor de discos. Pereira desenvolveu um trabalho sobre sons tipicamente brasileiros, o que inclui a gravação que pode ser escutada em "The Shaman". Mas ele acabou perdendo os direitos autorais sobre a gravação, além de ver sua empresa de discos ir a falência e encarar outros problemas pessoais. Tudo isso fez com que Pereira acabasse cometendo suicídio em 1981, deixando um legado de discos gravados por diversos artistas regionais. 

 

Outra canção que sempre envolveu comentários curiosos foi "Z.I.T.O.", considerando seu título curioso. Até onde sabemos, o nome da faixa supostamente surgiu através do nome do filho de um senhor que guardava o sítio onde a banda escreveu o disco. Alguém pegou o rapaz descobrindo alguns novos prazeres do início da adolescência, isso virou motivo de piada dentro da banda e acabou parando na música. "Like a teenager discovery" - entende agora o sentido dessa frase na letra?
Ainda temos a balada "Make Believe", outro grande clássico do Angra, a grandiosa "Deep Blue" com seu peso orquestrado, e a acústica "Lullaby For Lucifer", uma bela faixa acústica que encerra o disco. "Holy Land" é um álbum incomparável, um divisor de águas na carreira da banda. Além disso, é um álbum que define a personalidade do Heavy Metal feito por brasileiros quando as misturas regionais são adicionadas a um som pesado.

 

No mesmo ano, o Angra ainda lançaria o EP "Freedom Call", cuja faixa título acabou não indo para a versão final de "Holy Land". O EP ainda inclui versões regravadas de "Reaching Horizons" e "Queen Of The Night", uma versão orquestrada de "Stand Away", a versão editada de "Deep Blue" e um cover para "Painkiller", do Judas Priest. Pode-se encontrar também alguns versões do EP com faixas bônus, as versões acústicas de "Angels Cry", "Never Understand" e "Chega de Saudade", de Tom Jobim, todas gravadas ao vivo em uma apresentação especial na França. 
A turnê de "Holy Land" também foi um enorme sucesso, com shows realizados em vários países, incluindo apresentações no Japão. O Angra marcava de vez sua ascensão em terras orientais, com vários shows lotados pelo país. Um registro ao vivo foi feito durante a turnê, com um show em Paris, no dia 15 de novembro de 1996, gravado e posteriormente lançado em um EP chamado "Holy Live". Apesar de incluir apenas 4 faixas do show (o EP tem 6 faixas, na verdade, mas temos as introduções "Unfinished Allegro" e "Crossing") e uma produção mediana, serve como único lançamento ao vivo oficial da banda com sua formação clássica. Item obrigatório para os mais fanáticos. 


No próximo especial: "Fireworks" e a polêmica separação da formação clássica.

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